06 August 2009

My twilight zone moment

Entre a compra da bicicleta e a sua reparação, lá se foi a manhã para as compras. Tinha saído para comprar comida para o almoço e tomar o pequeno-almoço e regressava com uma bicicleta mas sem comida. Confirmada a direcção correcta para o Safe Way e para o Fred Meyers mais próximos, que praticam preços muito aceitáveis e têm uma variedade de productos indiscritível, lá segui pela Hawthorne Boulevard.

Mas antes de mais, pausa no Burgerville para almoçar. O meu primeiro cheeseburger americano. Um cheeseburger, por favor. Pausa para consultar os preços e ofertas. E uma bebida média. O preço - cerca de 1,60 dólares - parece não mudar. Uma bebida média, repeti. A empregada aponta para o preço: tinha subido 20 cêntimos. Deu-me um copo que podia encher ao meu gosto, com quanta bebida e gelo quisesse, e voltar a encher quantas vezes quisesse. Por 20 cêntimos. Comparem-se estes preços com os da comida nos supermercados - carne, fruta, legumes, ovos e leite - e ficamos a perceber o porquê da adesão dos americanos ao fast food. Não será apenas pelo sabor dos cheeseburgers.

Foto: Google Images

My twilight zone moment

Tinha comprado a bicicleta há alguns minutos. Se tiver algum problema em 30 dias está dentro da garantia, vem cá e eu arranjo-a, disse-me o vendedor. Pagar 39 dólares pela bicicleta é um bom negócio. Mudanças automáticas, para mais. Ia a subir a rua e sinto um solavanco. Mudou a mudança. Novo solavanco. Nova mudança. Novo solavanco. O pedal treme. Deve ser mais uma mudança. O pedal cai no chão e eu fico com uma bicicleta só com um pedal. Uma cena típica de um filme. Uma hora depois, já arranjada, e com as mãos cheias de óleo, porque lá dei uma mãozinha, tinha de novo a bicicleta em condições.

My twilight zone moment

Na Hawthorne Boulevard encontro uma agência funerária, a Holman's fundada em 1854 como indica a respeitável placa no grande relvado em frente da enorme morada. Imagine-se a Fisher & Sons da série Sete Palmos de Terra e multiplique-se por cinco e ficamos com uma ideia de como é o edifício. Não faltavam uns corvos no jardim. Apenas fiquei a saber depois que os corvos não eram da agência. Vêem-se por todo o lado. Estão para Portland como os pombos estão para Coimbra.

Como sobreviver a um jet-lag

Isso era o tipo de dicas que eu daria tivesse tido um jet-lag. Mas eu não tive um jet-lag. Acho mal. Depois do que eu paguei pelo voo esperava que isso já estivesse incluído. Acredito que aquelas pessoas na classe executiva tiveram direito ao seu jet-lag.

Talvez tenha sido de não ter dormido na noite anterior. Talvez tenha sido de ter dormido pouco no avião. Talvez tenha sido de mudar logo a hora do relógio. Talvez tenha sido de recusar pensar que horas já seriam em Portugal. Talvez seja apenas da luz solar do dia limpo em Newark que não deixava dúvidas que ali ainda era dia.

03 August 2009

Portland em imagens (1)

No domingo à tarde, acompanhado pelo José e pela Tânia, meus colegas de mestrado e de aventuras nos Estados Unidos, fomos dar um passeio pela downtwon de Portland. Completamente diferente do meu bairro com as suas casas familiares. Mas, ainda assim, parece-me, um bom sítio para viver. Muitas árvores. Muita sombra. Muito bem organizada. Muito moderna. Muito bonita. Muito limpa. Mesmo muito limpa.








Portland: Day One

Cheguei à minha nova casa, nas proximidades da Hawthorne Boulevard, após um voo entre Newark e Portland. Menos confortável mas quando se aproveita um voo para dormir, não se tem que ser muito exigente.

Domingo de manhã. Acordo pelas 8 horas da manhã, com o quarto cheio de sol. São 16 horas em Portugal. É estranho pensar que aqui quando começamos o nosso dia o dia lá em Portugal vai já a meio. Decido fazer um passeio pelo bairro, até porque preciso de comprar alguma comida. Dois minutos depois passo por um dos cruzamentos onde nasce o Burgerville, uma cadeia de hamburguers onde não falta o ar de restaurante dos anos 60 e os hamburguers nos famosos cestos de rede de plástico vermelho, e um pequeno café, junto da bomba de gasolina, que serve pequenos-almoços completo a preços reduzidos entre panquecas, torradas e ovos e bacon. Fica a nota para lá regressar.

O bairro é como nos filmes. Como nos filmes vezes dez. As ruas são tranquilas, cheias de sombra e árvores com as casas de madeira alinhadas em ambos os lados, pessoas a fazer jogging, andar de bicicleta, a tratar do jardim ou os típicos garage sales, as vendas de garagem. E, ocasionalmente, alguns esquilos lá pelo meio das árvores - aqui vêem-se muitos esquilos e corvos. Estamos num domingo típico na mais típica american way of life, como comentou o meu colega de casa italiano. Não há dúvida: já não estou na Europa.

Uma das vendas tinha várias bicicletas e não resisti a comprar imediatamente uma, estaria arrependido de não o ter feito, por apenas 39 dólares. Bastante menos em euros. Tem sido um excelente meio de transporte. Com ela, chego à universidade em 15 minutos.

Sorte em dose dupla

Ao chegar a Newark tinha umas calças de gangas que bem poderiam passar por um camuflado depois dos salpicos de uma salada que uma hospedeira deixou cair no lugar mesmo na minha frente. Nem aquela mantinha simpática me salvou. Grande azar e um ou dois palavrões vieram-me à boca enquanto tentava limpar aquilo na acanhada casa-de-banho do avião.

Agora, tive tudo menos um dia azarado. Tivesse eu ido para La Guardia e não para o aeroporto de Newark e não teria chegado a Portland nessa noite. Alguém achou por bem ir passear-se para La Guardia com uma imitação de bomba e o aeroporto foi evacuado. Não era caso para menos. Mas deixava de lado qualquer hipótese de chegar a Portland a tempo e horas.

Ainda consegui mais um exemplo, houvessem dúvidas. Indo eu à janela na viagem de Newark a Portland estaria como que "encurralado" umas sete horas na ponta daquela fila. Mas uma família lá começou a protestar que queriam viajar os três juntos e tinham bilhetes juntos e lá me ofereci para trocar e assim voltei a ter um lugar na coxia. As minhas pernas agradeceram. Mesmo que quando as esticasse lá visse as manchas do molho de vinagrete...

02 August 2009

Um café americano

Em Newark esperavam-me sete horas. A rede wireless era fraca para usar um eufenismo. Eu já ia mais ou menos preparado por pessoas que haviam feito escala em Newark para não ter internet. O meu problema era mais como me manter acordado sete horas, sem adormecer, sem ter dormido assim tanto no primeiro voo. Encontrei um Starbucks no terminal, todo ele enorme, todo ele cheio das mais variadas lojas, todo ele americano.

Ia pedir um Espresso italiano, algo com um sabor familiar, mas o preço assutou-me. Correcção: no Starbucks qualquer preço assusta. Fiquei-me pelo café americano. O tal de que o Sarvesh se queixava. O meu primeiro café americano ficou-me a 2 dólares um copo médio, bem grande. Correcção: 2 dólares e 14 cêntimos que eles só somam o imposto depois. Soubesse isto e ia para o pequeno, pensei.

Pouco forte, pouco saboroso. O Sarvesh tinha razão. Felizmente lá havia a habitual mesa com os açúcares, leite, natas e baunilha e lá estive uns minutos a tentar melhorar um pouco aquela água escura. Posto isto, tempo de me sentar e apreciar o café e uma água fresca e ler um número da Economist. Primeiro momento americano. Soube bem e ajudou a passar o tempo até ao avião.

Foto: Google Images

Não se preocupe que tem roaming diziam eles...

Tinha confirmado que a minha rede tinha roaming para Portland. Tinha confirmado que podia fazer e receber chamadas e até carregar o telemóvel pela internet como se estivesse em Portugal. Tinha sabido dos problemas da comadre Tânia, chegada aos Estados Unidos um pouco antes, e do seu telemóvel. Telemóveis diferentes. Redes diferentes. Há que ser positivo: talvez me safe.

Foi com um sorriso amarelo que confirmei que o telemóvel não tinha rede. Ainda por confirmar se o problema não é mais que o roaming, mas o próprio telemóvel que não trabalha nas bandas ou frequências dos Estados Unidos. Engraçado que um amigo me havia avisado para os riscos de comprar aqui nos Estados Unidos um telemóvel que não funcionasse na Europa e eu me esquecesse que o inverso podia ser também verdade. Parece que é mesmo.

Salvou-me o cartão de chamadas que comprei numa loja do aeroporto. Dez dólares queimados em duas chamadas para Portugal.

Será New York ali em baixo?

Escassos minutos para a aterragem. As duas americanas ao meu lado, que vestiam cada uma camisola do Barcelona, debruçam-se sobre a janela. Alguns campos e subúrbios. Viro a cabeça para o outro lado. Fábricas. Armazéns. Linhas de comboios. Uma zona industrial. Mas ao fundo, um rio. E prédios a nascerem. Numa ilha. Seria New York? Uma ilha tão pequena. Sem qualquer arrogância. Uma cidade de prédios que, ali de cima, pareciam quase frágeis. Umas miniaturas. E poucos segundos depois, a Estátua da Liberdade, verdadeiramente pequena. Sim, era New York.

Rapaz, não é porque a gripe seja grave...

Uma das primeiras coisas que vi no aeroporto foi um distribuidor de uma loção desinfectante para as mãos. Uma espécie de espuma com um cheiro forte a álcool no início mas que acaba a ser refrescante e perfumado depois de esfregar as mãos. Uma espécie de aviso quase silencioso que a gripe A anda por aí. E, sem alaridos, quase todos lá iam esfregando as mãos. Curiosamente aqui na universidade, encontrei depois de uns dias, vários destes distribuidores que parecem estar aqui há já algum tempo. Fica a dúvida o que veio primeiro, um pouco como o ovo e a galinha: a gripe ou a loção para combater a gripe?

Com New York ao fundo

Chegado ao Estados Unidos esperava-me uma enorme sala dos serviços de fronteiras para verificação do passaporte e documentação. O aeroporto de Newark, a alguns quilómetros de New York, permite avistar ao fundo o sky line de Manhattan. Não há dúvidas: o Empire State Building é agora o edifício mais imponente. Mas a esta distância parece uma cidade miniatura. Lembrete no caderno: a ver de perto.

O país em forma do rectângulo?

Normalmente recomenda-se esticar as pernas num voo intercontinental por questões de sáude, mas a verdade é que podem haver outras. Como no meu caso, por uma feliz coincidência, numa dessas idas à casa-de-banho lá no fim do corredor - mais uma desculpa barata para dar algum exercício às pernas. Quando passo pela janela avisto terra. Como íamos a meio da viagem não podia já ser território americano e no meio do Atlântico uma ilha provavelmente faz parte dos Açores. Informação logo confirmada, uns minutos depois, pelo piloto: we are flying over Azores.

Aqui percebe-se o quão é limitado pensar em Portugal como um rectângulo de terra, aquele cantinho da Península Ibérica. Como é limitado pensar que Portugal não é um país de mar. Um país grande. Um país que de Lisboa a esta ponta do território, o arquipélago dos Açores, leva quase três horas de voo sobre o mar. Ainda fiquei a pensar alguns minutos nisto.

Voo CO 65 para Newark

As pouco mais de três semanas em Portugal passaram, como já era esperado, muito rápido. No sábado de manhã lá estava de novo no aeroporto de Lisboa a olhar para a tabela de partidas. Verifiquei as horas do meu voo para Newark. Verifiquei o bilhete digital. Confirmava-se: um voo de cerca de sete horas a que se seguia uma escala neste aeroporto de New York por mais sete horas e um voo de cerca de cinco horas até Portland, estado do Oregon.

O meu primeiro voo intercontinental. O avião, um Boeing 777 da Continental Airlines, podia não tinha as impressionantes três filas que vemos nos filmes, mas ganhava no conforto. Esperava muito menos. O lugar era espaçoso, confortável, ficha para computador, almofada e manta e com um ecrã individual onde podia seleccionar entre 40 filmes, algumas das mais recentes séries, ouvir música a gosto ou explorar alguns jogos. Na falta de um livro, sono ou outra distracção, todos tinham com que se entreter. No que me toca vi o Diabo Veste Prada - bastante bom, ainda que sem nada de inesperado depois de ver o trailler, está quase tudo lá -, um pouco de Harry Potter e a Ordem de Fénix e revi algumas partes do Parque Jurássico e Encontros Imediatos de Terceiro Grau. E dormi. E comi. E pensei no que me esperava. E as setes horas passaram sem qualquer custo.

Claro que ajudou estar na coxia , claro que ajudou ir-me levantando de vez em quando, claro que ajudou ter dormido pouco antes e ter dormido na viagem. Mas, para o que me haviam dito, com histórias a lembrar o tempo da Inquisição, esperava muito pior. Até que gostei. Até que repetia - e repeti, sete horas depois. Fossem assim todos os voos de low-cost...